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Contos Invisíveis
 


neymar

É assim. Me deixem em paz. Os meus cabelos serão o que for. As minhas bolas entrarão ou não. Os meus dribles andarão sozinhos. Batam que eu me levanto. Não serei Pelé, não serei Messi, não serei ninguém, exceto o que sou.



Escrito por Rosane Pavam às 23h21
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um time, um país

Raramente alguém verá as lágrimas que inundam minha pele de dentro. Sou a rocha mole. E choro durante um filme de Clint Eastwood. Mas por quê? Não é a obra dele de que todos se lembrem. Não tem o toque da luta que sangra e mata. Pelo contrário, a história vem ali compreendida em linhas finas, um vinho harmonizado em relação a um prato de comida. Nelson Mandela tem dois problemas, a nação antes que se forme e a família que o rejeita. E então esse Mandela de tanta vida e história, o Madiba, corre atrás da simbologia da união de si mesmo e da nação por meio de um jogo de rúgbi. Não somente Morgan Freeman é esplêndido no papel do presidente, mas cada passagem do roteiro, da fotografia, ilustra a paixão eloquente com a qual se deve construir um país de tão áspera tapeçaria. E é também, Invictus, um grande e raro filme em torno do esporte, da torcida, dessa emoção banal plenamente justificada por circunstâncias amargas. Vai ver eu não choro pela África do Sul, pelo Brasil, por coisa nenhuma quando vejo esse filme pela tevê, exceto pelo poder que sobre mim exerce qualquer arte, grande ou pequena, arte que reproduz com um mínimo sentido a fúria de viver.



Escrito por Rosane Pavam às 12h22
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o amor nos tempos do capitalismo

Amor nos Tempos do Capitalismo não é o que o título possa sugerir. Não, pelo menos, um livro que ensine um ser humano a amar o outro apesar do mundo mau lá fora. Nem um compêndio a constatar o óbvio poder de mercado deste sentimento na sociedade de consumo. O livro de Eva Illouz, socióloga nascida no Marrocos e residente na França desde os dez, dá um outro lugar ao amor. Para encontrá-lo, a pesquisadora de 50 anos leu publicações de auto-ajuda, acompanhou sites de relacionamento e assistiu a muitos programas de televisão, nos moldes daquele da norte-americana Oprah Winfrey, nos quais a pungência sentimental tomava frequentemente o centro. Seu livro, lançado no Brasil pela editora Zahar, nasceu da inquietude diante da exposição midiática sem limites da dor alheia, amorosa ou não. Por que narrar os próprios flagelos, perdas, sofrimentos e situações de abuso elevaria a audiência de uma programação ou o índice de leitura de um site ou de uma revista? Por que expor a intimidade tão abertamente, sob risco de vexame?

 

Eva Illouz, que já escrevera um estudo sobre o programa de Oprah, desenhou sua hipótese. Isto aconteceria porque, pelo menos em nível de infortúnio, o capitalismo ofereceria ao sofredor um destaque que o equipararia socialmente a qualquer outro cidadão. Nem todos temos um bom emprego, uma casa de fantasia, uma família de tradição, a fortuna que nasceu de um crime distante, a promover um destaque social. Tampouco podemos contar com o mesmo tipo de acesso a bens, moradia, educação e glórias na sociedade movida pela concentração do capital. Mas, entre a faxineira do prédio, desprovida de dinheiro, e a popstar Beyoncé haveria sempre um denominador comum no sofrimento a enfeitar suas vidas. Como num passe de mágica, sem recorrer a um assalto a banco, sem ganhar um tostão na loteria, seríamos merecedores de reconhecimento e atenção universais, e isto significaria um poderoso substituto de uma boa condição financeira.

 

A vida de alguém, realçada pela dor, ganha, assim, um posicionamento alto, que prescinde da existência de títulos e posses. É o que a enfeita, por assim dizer, e A destaca no oceano de existências anônimas. O sofrimento seria uma obra de valor, cujo lastro nasceria da história íntima. E todos têm a sua. A própria Oprah Winfrey jamais deixou de situar, como marco em sua existência, além da pobreza, o fato de ter sido vítima de abusos sexuais na infância e na adolescência. Hoje espetacularmente rica, ela se torna igual a todos os ninguéns sem moradia, crédito, relacionamentos, títulos de clube, tapetes vermelhos e jóias no cofre apenas em razão da violência sofrida remotamente. Porque sofremos, e não ousamos desejar mais que isso, somos iguais a ela, que “venceu”.

 

Quando os sofredores abusam da exposição do próprio eu, inflam um ideal romântico e burguês de identidade e, principalmente, deslocam-se da nuvem dos invisíveis de posição social. Imaginam-se, eles mesmos, homens de poder. O sofrimento, especialmente aquele narrado às lentes da televisão, concede calma ilusória a esses desvalidos da grana. É um meio rápido de superar a barreira social e de construir uma biografia. Um meio novo, diz Eva Illouz, já que, antes, especialmente em fins do século XIX e início do XX, a história de um grande homem, história que merecesse ser destacada e admirada, fazia-se exclusivamente quando narrada do nascimento na miséria ao enriquecimento financeiro. Um homem não precisava sofrer abusos de toda ordem, físicos, sexuais, para merecer atenção e respeito de todos os que viviam sob o capital. Bastava se tornar rico.

 

A riqueza que não existe sob a forma material receberia equivalência em horas sofridas, decantadas especialmente pela internet e pela televisão. As redes sociais não são bem-sucedidas por acaso. Tornaram-se irresistíveis niveladoras sociais por meio da simples exposição do que sentimos. Fóruns em que, vezes várias, somos ilusoriamente livres para dizer quem somos, como se isto pudesse interferir no curso das coisas no mundo do capital, ao qual nosso acesso é francamente secundário. Nas redes sociais, além de comunicar, manifestar, esprair um desejo de transformação, valorizamos a exposição íntima, a opinião particular, aquela mesma nascida de uma vida sem títulos de sabedoria, esquecidos de que falar a esse léu por vezes nada mudará, especialmente no que se refere a nossa conta bancária, a nossa capacidade de adentrar o portão do clube dos homens de bem. Em uma sociedade sem mediações, na qual as instituições como a justiça parecem enfraquecidas, e na qual as oportunidades culturais e educacionais não são as mesmas para todos os cidadãos, transformar nossas lágrimas em moeda não parecerá uma ideia ruim. É isto, para a socióloga marroquina, o que significa amar (e, por extensão, expor o que sofremos) em tempos nos quais o capital manda ver.



Escrito por Rosane Pavam às 16h53
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Na avenida Paulista, eles agitam o estandarte contendo o perfil em escrombos do Plinio Correa de Oliveira. São dissidentes da TFP, na verdade uma espécie de PC do B deles, e talvez haja menores de idade entre os que passam de lá para cá agitando um folheto e um lenço, hum, dourado, como um echarpe, em volta do colo. Um mané desses em ouro se aproxima para me entregar um folheto. "Pela família, contra os homossexuais, senhora". Meu gesto é afastá-lo com a mão, como quem se livra rapidamente da mosca do estrume. Digo-lhe: "Sai pra lá, maluco". Naquela hora temo uma contaminação diretamente na pele, enquanto ele retruca: "Maluco eu, senhora?" Ando devagar para não lhe insinuar qualquer temor, porque, sim, bem sei, maluco ele não é. Lá na frente, um velho sorridente e um quase monsenhor, vestido como num filme de Rossellini, caminham em direção de senhoras como eu, a dignidade em dia. Crápulas, não menos, mas crápulas de circo, muito saidinhos no palco da avenida para quem deseja para o Brasil o estatuto do golpe, do medo e do terror.



Escrito por Rosane Pavam às 12h27
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A razão principal deste afeto por uma pessoa desconhecida, com quem acaso estive em São Paulo durante uma coletiva, é que há nela uma agudeza, aquela que a gente chama de inteligência, ao observar as coisas e as pessoas (cheguei atrasada à entrevista, e ela, enquanto falava aos jornalistas, percebeu-me esbaforida com um leve divertimento). Naquela ocasião, Liv Ullmann parecia não se levar tão a sério assim, disposta a entregar a percepção de grandeza para os cômicos, como a lembrar que sempre haverá aqueles maiores, mais humanos, mais certeiros do que nós.



Escrito por Rosane Pavam às 13h56
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Sonho que malho e malho em filmes bacanas de jovens diretores sem Oscar, dinheiro ou unanimidade de público, e que, decidida a entregar remédios em domicílio para sobreviver, de repente recebo a ligação da secretária do Woody Allen me propondo uma ponta em mais um daqueles seus longas anuais, sendo que a melhor frase do filme, eu é que vou dizer. Sei que vou perder a chance de um emprego na farmácia, que o filme não valerá tanto a pena ser visto, exceto pela coragem de expor a negatividade calorosa de Woody Allen de novo, mas que a vida, com esse convite, terá me me feito participar da beleza inútil da arte pelo menos uma vez.



Escrito por Rosane Pavam às 11h02
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no passado, ele para mim era o melhor guitarrista, compositor, músico de todos, mas agora, além disso, suas roupas das quais eu rira antes, tão cafonas, me pareciam as melhores, e mais, eu me pegava pensando como ele fizera tantas coisas em menos de trinta anos, amar as mulheres e invejar os sujeitos longínquos de seu mistério, jagger, clapton, townsend, poor bastards!



Escrito por Rosane Pavam às 11h02
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Penso agora em Pita, Joari, Ailton Lira, Paulinho McLaren, em todos estes meninos vileiros esquecidos, antes mesmo de imaginá-los Mengalvio, Feitiço, Pepe ou Clodoaldo, ou Gilmar ou Rodriguez, ou aquele que a gente nem mais cita, por ser deus. Pensei como penso sempre, a respeito da inspiração que nos trazem, onde foram parar esses pés mudos, pais de neymares e messias, e se nossa memória será o eterno lugar quente onde eles poderão se enroscar, presos à bola da história até torná-la pérola de rio, rústica e rica. Um grande amor para quem faz, fez ou fará descer a poesia até os pés, parabéns a todos os santos do futebol.



Escrito por Rosane Pavam às 10h59
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Não posso negar, embora na juventude tenha feito isto, que os exercícios físicos funcionem como pílulas para a longevidade e o otimismo. Mas não resisto a esta manhã solitária e livre, rara, portanto, quando os livros quietos acordam à minha espera, aqueles tão bem escritos e enganosamente simples, o Freud de Peter Gay. Sem contar os filmes de olhos brilhantes enfileirados na cabeceira, já sob a categoria de bibliotecas, Milagre em Milão, por exemplo, ainda que eu jure ligá-la, esta fábula extraordinária de De Sica, a minha pesquisa na universidade. Ficaria, vitoriana burguesa, horas e horas a lhes falar, porque falo enquanto me ensinam, eles que passam a mão sobre o caos expresso nestes cabelos, acalmando o espírito, se existe um. Corro a mente sobre a esteira, aumentando o ritmo. A consciência da dor. E então passo a mão sobre as cabeças desses livros e filmes, pedindo-lhes que esperem por mim, eu que voltarei a eles em breve, à noite, na manhã seguinte, com o vagar do ritmo das coisas reais. 



Escrito por Rosane Pavam às 10h58
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O meu Piauí

Minha mãe nasceu no Piauí, o que, suspeito, tornou-me rara. Conheci o Piauí de perto. Ninguém na maior parte do Brasil parece saber o que o Piauí é. Mas, na minha infância, ele não tinha mistérios. Era apenas indescritível. Um céu com mais estrelas. 

Os colunistas de blog da atualidade, os atores, os filósofos do saber, acham interessante dizer que, com essa enchente terrível, responsável por deixar dez mil desabrigados no estado, o País todo fica com a cara do Piauí. Como se ao Piauí equivalesse a máxima miséria brasileira e como se, ao evocar seu nome no título de uma revista cultural, a ironia pelo contraste estivesse perfeita. 

Observo que muitos males ainda pendem do imaginário dos pensadores locais. Antes o Brasil se parecesse com o Piauí. Dizer Piauí é dizer uma utopia que o País não alcança. São pobres lá, antes e agora, como foram e ainda serão os brasileiros em todos os recantos das cidades ricas. Mas são também ricos no Piauí, como poucos suspeitam. As escolas, a arqueologia, a poesia, um cotidiano de profundas marcas. 

Outro dia, em uma festa a que compareci, alguém se aventurou ao curioso raciocínio: “Se não conheço ninguém que tenha vindo do Piauí, o Piauí não existe. Não conheço ninguém que tenha vindo do Piauí.” Não sei o porquê da sem-cerimônia com relação ao estado de triste sina. Se não conheço ninguém que tenha vindo do Rio Grande do Sul, por acaso ele teria deixado de existir? 

Lembrei-me, ao presenciar o exercício dessa complexidade lógico-linguística, que “lugar nenhum” é o significado para utopia. Thomas Morus utilizou a palavra no título de um livro clássico do século XVI. Era um relato ficcional irônico, provando a impossibilidade da vida perfeita. Com o passar dos anos, Morus preferiu que esquecessem o que escrevera e se dedicou, como padre, a condenar os pensadores viajantes. 

O Piauí é utópico. E os ironistas sem linha se servem dessa utopia. 

Minhas férias de verão aconteciam em Floriano, no sul do estado. Férias de quase três meses. O verão que eu passava por lá era inverno para os piauienses, porque chovia. Na cidade piauiense, a terceira do estado, ardente apesar de seu estado invernal de dezembro a março, as lavadeiras tiravam a blusa a céu aberto e passavam sabão nos seios sem se importar com quem as observava. O rio Parnaíba onde lavavam quilos de roupa de encomenda era marrom como o barro. O rio afogava os desavisados, eventualmente paulistanos que integravam o Projeto Rondon. Os cavalos, vez por outra, deslizavam mortos pela forte correnteza e eu assistia a sua última viagem. O sol se punha sobre Floriano, e eu o observava da margem oposta, na Barão de Grajaú maranhense. 

A avenida mais bonita dessa cidade dava para o cais, onde se atracava um restaurante flutuante. Era uma avenida não como se entende uma grande via de asfalto urbana. A avenida do cais vinha calçada de pedras. A via séria, principal, era a Getúlio Vargas, que seguia contínua até a igreja da praça. De noite, a gente jovem andava por ela em círculos. 

Sentados na praça, ficavam os meninos a observar os cabelos novos das moças, tirados da novela da Globo, que passavam no estado com atraso de meses. Em pé, alguns loucos, como o juiz que falava “gudnaite!” em respeitado inglês, faziam-se ouvir por trás do terno azul, do chapéu e da bengala. Havia a jovem negra continuamente grávida, alegadamente louca, de chupeta na boca, de nome Ciça. O vigário corria atrás dos casais improvisados atrás da matriz. As missas do padre Pedro eram gloriosas, porque educavam os fiéis. Irmão que casa com irmã, dizia padre Pedro, tem filho sem cabeça nem pé. 

Nos anos 70, não havia esgoto na cidade cujo nome homenageava o terrível marechal republicano. As vacas e as cabras andavam soltas na rua e o sol moía os olhos dos pedestres. Era uma festa quando chovia, porque a água banhava as crianças, que levavam sabão e toalha para a calçada. As casas amplas tinham terreno para galinhas, viveiros de pássaros, goiabeiras e umbuzais. Como não havia encanamento em todas as casas, o banho frio usualmente partia dos baldes retirados de poços. Matava-se a sede com a água de um pote de barro, colhida por meio de concha grande de alumínio. 

As comadres se sentavam à noite em cadeiras plásticas coloridas trançadas, diante de suas casas. Conversavam porque a televisão encerrava expediente às nove. Enquanto elas atualizavam histórias dos vizinhos e dos fantasmas, nós, as crianças, andávamos de bicicleta até a igreja e o cais, sem medo de bicho papão. Mas nos escondíamos dos adultos quando ocupávamos a garupa das lambretas. 

O Carnaval de rua de Floriano era lindo, remetendo a um século anterior. Havia blocos em que nos encaixávamos, aprontando a roupa igualzinha, pelas mãos de habilíssimas costureiras pobres. Os blocos saíam arrumados e os moleques sem dinheiro investiam contra eles com suas bisnagas cheias de xixi e uma porção de tinta. A apoteose ocorria quando todos os blocos se encontravam na tal avenida do cais, dançando ao som de exímios músicos andarilhos, de manhãzinha. Em casa, esperavam-nos o cuscuz de milho com manteiga ou o caldo de mocotó. As mães e tias dormiam. 

Há tanto sobre o Piauí entre aquelas coisas recortadas de minha memória que renderia muitas pequenas colunas. Não me cansaria de falar da sabedoria daquela gente em meio à miséria, cercada da imensa luz da noite. No chão de terra batida das casas, naturalmente, os homens se submetiam aos coronéis. Na Piauí dos anos 70, havia duas classes apenas. Os pobres, que sorriam. E os ricos, cuja fortuna, citando Charles Chaplin, nascera de um crime social. Para sobreviver à pobreza, era preciso agregar-se aos ricos.

A miséria no Brasil pode se equivaler àquela piauiense, mas não é a mesma. Quando se vive na favela paulistana ou fluminense a lua não é mais branca do que aquela.



Escrito por Rosane Pavam às 23h17
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pietà lilás

Tenho seus olhos nos meus e não consigo dormir, porque vejo o que você vê. Um elevador que nunca pára de subir. Um carteiro vestido de negro, trazendo as notícias da minha reprovação escolar. O cachorro que me persegue sem razão, findo o dia, até que eu alcance o oitavo andar do prédio. Meu coração bate como o seu. Ou ele, em mim. Preciso estar com você, ou não mais estarei, ou serei, alguma coisa em qualquer parte.


 


À noite, meu pai me mostra fotos suas. Ele as guarda em um arquivo de computador. Nelas posso fazer alterações que me convêm. Posso aumentar o seu sorriso enquanto está de férias, viajando à Bahia, já que somente quando viaja você sorri. Dar um brilho aos seus cabelos que sempre me pareceram tão modestos é a minha maneira de acariciá-los. Em uma das fotos, eu lhe ofereço minhas bochechas de criança e você, de repente, ao beijá-las contra a face vermelha, transforma-se numa espécie de Pietà, vestida de lilás dos pés à cabeça.


 


Esta é a minha maneira de esperar que você novamente exista. 


 


 



Escrito por Rosane Pavam às 16h43
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miúdo

Sim, é verdade que, depois de lamuriar alto e imprecar silenciosamente contra minha velhice, embora não seja ele mesmo jovem, o senhor tentou me humilhar diante de todos os que vieram compor a mesa do jantar. A toalha, afinal, teve o avesso do bordado exposto para cima, e isto é um crime suficiente diante dele e da donzela de vestido branco que aguarda os camarões.


 


Ele sabe que deixei há muito de ser a responsável pela arrumação da sala, mas é preciso que me culpe agora, porque seu jantar atrasou. O homem me paga por isto, cozinhar. E também para que o verdureiro traga a escarola pela manhã, enquanto hoje ele só a trouxe à tarde, às seis. Não me passa pela cabeça apontar a falha do verdureiro, pobre homem, resfolegante como quem recebe um mau telefonema. Por que esse infeliz mereceria que a vida lhe oferecesse o pouco que oferece a mim? Quando o patrão chegou faminto em casa, depois de perder o dia decorando o mausoléu de vinte cômodos de madame Duse, eu já sabia que a tragédia viria, houvesse justificativa para isto ou não.


 


Odeio os homens miúdos, todos eles. E o senhor não passa de ter um metro e sessenta. Mas assim ele não se vê. É por acaso grande como um português das Amoreiras? Dentro de si cabem um metro e setenta, um e oitenta, talvez mais. Começam assim os assassinos, os presidentes, os funcionários públicos que consertam a situação ambiental do Brasil.



Escrito por Rosane Pavam às 22h24
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Por que não me disseram antes que seria assim? Um dia, a verdade deveria ser dita ao menino que tive. Não era adotado, não era pobre, nem nada íntimo ou cruel ou extraordinário que lhe valesse uma manchete de jornal. Era filho, fruto de penoso parto emotivo. Deveria dizer-lhe isto, que andaria em continuidade a mim, que pouco eu poderia lhe dar além de ser o que sou. E o que eu sou... não seria possível dizer ainda.

Envelhecemos e não sabemos nada. Crescemos sobre uma ponte em sentido contrário. Sóis se transformam em acidentes. Em busca do ser fulgurante que suspeitamos adormecido no peito, percebemos que alguma coisa se apagou.

Escrito por Rosane Pavam às 09h26
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todos os dois bonitos

Ninguém tem o direito de me julgar, porque fui homem, e fui bom. Por vários e vários anos, ela, a avó, tentou tirá-los de mim, a pedido da mãe. Que mãe? Esta que partiu um dia para a Espanha, trabalhou num banco, casou com outro homem e enriqueceu? Todas as tentativas ao meu alcance foram feitas para mantê-los comigo, eu posso lhe jurar. Os meninos são todos bonitos. Depois que vieram morar na minha casa em Vila Prudente, dei para o maior uma bicicleta, e o maior não é esperto como a menor, então os ladrões roubaram a bichinha no primeiro passeio pela Praia Grande. Mas não desisti e dei o skate para o maior, e a bola do Palmeiras para a menor, que joga futebol, não é bonito isto? Lá onde ficam agora tem basquete, eu tenho fé.

Eles se foram para a Espanha, senhora. Semana retrasada, domingo. Tive de ficar duro. Os dois embarcaram, eu dei um abraço rápido neles, e então voltaram logo pelo corredor do aeroporto, com sacolas nas mãos. Tive a esperança de que os rejeitavam lá na companhia aérea, mas era só esperança. A menina tinha levado xampus, e eles não deixam carregar coisas do Brasil para a Europa, não sei por quê. Voltaram a embarcar, e eu já não era firme.

Passaram-se duas semanas inteiras, eles estão muito felizes lá, onde faz frio toda vida. Têm jogo de videogame e computador, como não ficariam felizes com isto? Tudo é bonito no começo, a gente sabe. Fiquei vazio, vazio, porém tranquilo. Ontem, o primeiro domingo em que recebo ligação deles, desabo em choro, dor, choro, cabelo pregado nas mãos. Me diga o que faço com aquela cama de campanha; vou dar. O skate: pro vizinho. Não sobra nem a bola do Palmeiras. Tenho dois sobrinhos.

 



Escrito por Rosane Pavam às 15h43
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perfeição

Eu nada sabia dele além dos telefonemas. E começaram porque eu pedi a ele que me telefonasse. Há dez dias, picada na parte superior direita do rosto por um inseto vermelho de pintas arroxeadas, vivia de me esconder dos outros, jamais sabendo se aquela condição seria um dia revogada pelas pomadas. Minha dermatologista só atende das 13h às 17h, na Mooca, e é por todo esse período que antecede a despedida da luz que mamãe pede o socorro de me fazer lembrá-la quem é, ou foi.

Portanto, não veria ninguém fora de casa até que o inchaço se ausentasse de meu rosto. O inchaço era como aquele detestável dia quente que só ganhava algum sentido a partir das seis, ao se desfazer na convulsão de uma centrífuga de cenouras. Meu rosto não merecia ser visto desde que eu completara 42 anos, há dez; naquele ano pudera sentir os efeitos do abandono praticado por meu corpo em nome da união familiar.

Não me tornaria transparente, então, neste momento em que as rugas de expressão engordavam a ponto de soluçarem e o homem mais velho a comparecer a minha aula de espanhol era um jogador de squash de 25 anos. Mas o inchaço iria embora um dia? Algumas situações, como a do síndico que me força ao uso das pantufas mesmo na cozinha, parecem nunca ter fim.

Os telefonemas começaram porque, quando me ouviu pela primeira vez no atendimento ao cliente da farmácia, desesperada a ponto de ter trocado a palavra públicos por púbicos, recebi do homem na linha uma gargalhada de papai noel bêbado, ou assim eu a imaginara. Ho-hic-ho. Não esperava tanta liberdade partida de quem se contrata a um atendimento padrão.

Ei-lo, o homem incomum. Ele tem mais do que cinquenta anos, talvez sessenta. Sua voz é calma e bem-humorada, de quem não se amedronta diante de um livro grosso ou de uma torneira de chuveiro quente quebrada. O homem e a perfeição. Naquele mesmo dia dos púbicos, ele parece ter encontrado sua ouvinte predileta.

Na ocasião me contou as coisas divertidas que ouvira num antigo disco de Cornélio Pires, coisas das quais não me lembro agora e que, de todo modo, ele sempre poderá repetir para mim, já que as piadas me apresentam esta qualidade de sempre parecerem novas. Eu nunca ouvira falar deste autor caipira, o Pires, mas aparentemente ele lera seus livros e agora descobrira discos velhos com as gravações de sua voz. “Se você só ler Cornélio Pires, não vai entender coisa nenhuma que ele diz, achará tudo uma porcaria sem graça. Mas este escritor, como o Juó Bananère, são impressionantes descobertas sonoras.”

Liguei para ele no dia seguinte a propósito de uma dúvida médica e duas vezes no próximo. Pedi que me retornasse no terceiro dia a partir das nove da noite, hora provável em que mamãe dormiria e Alvinho, pregado no sofá depois de chorar, seria carregado no colo até o quarto, pelas escadas laterais de madeira. O homem e a perfeição e o riso...

Foi no sexto dia, tomada pela paixão física que eu ainda não reconhecera deste modo, já que as conversas eram apenas uma desculpa para a pesquisa de uma fórmula caseira dermatológica, que me avisaram da farmácia de sua ausência no trabalho. Fora fazer um exame de sangue. Sim?, disse eu. Qual é o seu nome?, perguntei, a propósito. O nome do Homem Azul?, respondeu-me a mulher.

Homem Azul? A voz substituta no atendimento deu de novamente gargalhar, mas agora vinha entrecortada de pigarros. Sim, homem azul? Ela começava a me explicar com muito gosto que ele se tornara azul antes de se iniciar no mundo da farmácia como auxiliar. Há dez anos, começara a sentir o efeito do uso indiscriminado de nitrato de prata, um elemento que pessoalmente absorvia para curar tudo, de pneumonia às erupções do rosto, já que seu trabalho como maquinista de tratores, ironicamente, não lhe permitia o deslocamento à cidade e aos médicos. O nitrato de prata era usado antes dos antibióticos, sabia? E tinha o estranho efeito de azular todo o corpo, como tinta.

A voz fumava enquanto aguardava por mim. Eu e minha surpresa, a supresa que assim não desejava se declarar, denunciada, contudo, pela expressão das palavras pronunciadas ligeiras, novamente perturbadas de sentido. Eu já sabia, sim, claro, já lera sobre isso na Veja, ou fora na Época, ou na Vida de Psicólogo? Claro, acontecia muito isto com os macacos, me parecia, de Nova Guiné ou de Papua...

_ Minha senhora, me permita dizer que ele está tomado por sua voz _ interrompeu-me ela, mais fumaça desta vez. _ E que a senhora não perderá por conhecê-lo. Ele é um homem maravilhoso. Periodicamente faz exames de sangue para detectar o risco de derrames causado por esta sua desordem.

O Homem Azul?

Escrito por Rosane Pavam às 09h07
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