O meu Piauí
Minha mãe nasceu no Piauí, o que, suspeito, tornou-me rara. Conheci o Piauí de perto. Ninguém na maior parte do Brasil parece saber o que o Piauí é. Mas, na minha infância, ele não tinha mistérios. Era apenas indescritível. Um céu com mais estrelas.
Os colunistas de blog da atualidade, os atores, os filósofos do saber, acham interessante dizer que, com essa enchente terrível, responsável por deixar dez mil desabrigados no estado, o País todo fica com a cara do Piauí. Como se ao Piauí equivalesse a máxima miséria brasileira e como se, ao evocar seu nome no título de uma revista cultural, a ironia pelo contraste estivesse perfeita.
Observo que muitos males ainda pendem do imaginário dos pensadores locais. Antes o Brasil se parecesse com o Piauí. Dizer Piauí é dizer uma utopia que o País não alcança. São pobres lá, antes e agora, como foram e ainda serão os brasileiros em todos os recantos das cidades ricas. Mas são também ricos no Piauí, como poucos suspeitam. As escolas, a arqueologia, a poesia, um cotidiano de profundas marcas.
Outro dia, em uma festa a que compareci, alguém se aventurou ao curioso raciocínio: “Se não conheço ninguém que tenha vindo do Piauí, o Piauí não existe. Não conheço ninguém que tenha vindo do Piauí.” Não sei o porquê da sem-cerimônia com relação ao estado de triste sina. Se não conheço ninguém que tenha vindo do Rio Grande do Sul, por acaso ele teria deixado de existir?
Lembrei-me, ao presenciar o exercício dessa complexidade lógico-linguística, que “lugar nenhum” é o significado para utopia. Thomas Morus utilizou a palavra no título de um livro clássico do século XVI. Era um relato ficcional irônico, provando a impossibilidade da vida perfeita. Com o passar dos anos, Morus preferiu que esquecessem o que escrevera e se dedicou, como padre, a condenar os pensadores viajantes.
O Piauí é utópico. E os ironistas sem linha se servem dessa utopia.
Minhas férias de verão aconteciam em Floriano, no sul do estado. Férias de quase três meses. O verão que eu passava por lá era inverno para os piauienses, porque chovia. Na cidade piauiense, a terceira do estado, ardente apesar de seu estado invernal de dezembro a março, as lavadeiras tiravam a blusa a céu aberto e passavam sabão nos seios sem se importar com quem as observava. O rio Parnaíba onde lavavam quilos de roupa de encomenda era marrom como o barro. O rio afogava os desavisados, eventualmente paulistanos que integravam o Projeto Rondon. Os cavalos, vez por outra, deslizavam mortos pela forte correnteza e eu assistia a sua última viagem. O sol se punha sobre Floriano, e eu o observava da margem oposta, na Barão de Grajaú maranhense.
A avenida mais bonita dessa cidade dava para o cais, onde se atracava um restaurante flutuante. Era uma avenida não como se entende uma grande via de asfalto urbana. A avenida do cais vinha calçada de pedras. A via séria, principal, era a Getúlio Vargas, que seguia contínua até a igreja da praça. De noite, a gente jovem andava por ela em círculos.
Sentados na praça, ficavam os meninos a observar os cabelos novos das moças, tirados da novela da Globo, que passavam no estado com atraso de meses. Em pé, alguns loucos, como o juiz que falava “gudnaite!” em respeitado inglês, faziam-se ouvir por trás do terno azul, do chapéu e da bengala. Havia a jovem negra continuamente grávida, alegadamente louca, de chupeta na boca, de nome Ciça. O vigário corria atrás dos casais improvisados atrás da matriz. As missas do padre Pedro eram gloriosas, porque educavam os fiéis. Irmão que casa com irmã, dizia padre Pedro, tem filho sem cabeça nem pé.
Nos anos 70, não havia esgoto na cidade cujo nome homenageava o terrível marechal republicano. As vacas e as cabras andavam soltas na rua e o sol moía os olhos dos pedestres. Era uma festa quando chovia, porque a água banhava as crianças, que levavam sabão e toalha para a calçada. As casas amplas tinham terreno para galinhas, viveiros de pássaros, goiabeiras e umbuzais. Como não havia encanamento em todas as casas, o banho frio usualmente partia dos baldes retirados de poços. Matava-se a sede com a água de um pote de barro, colhida por meio de concha grande de alumínio.
As comadres se sentavam à noite em cadeiras plásticas coloridas trançadas, diante de suas casas. Conversavam porque a televisão encerrava expediente às nove. Enquanto elas atualizavam histórias dos vizinhos e dos fantasmas, nós, as crianças, andávamos de bicicleta até a igreja e o cais, sem medo de bicho papão. Mas nos escondíamos dos adultos quando ocupávamos a garupa das lambretas.
O Carnaval de rua de Floriano era lindo, remetendo a um século anterior. Havia blocos em que nos encaixávamos, aprontando a roupa igualzinha, pelas mãos de habilíssimas costureiras pobres. Os blocos saíam arrumados e os moleques sem dinheiro investiam contra eles com suas bisnagas cheias de xixi e uma porção de tinta. A apoteose ocorria quando todos os blocos se encontravam na tal avenida do cais, dançando ao som de exímios músicos andarilhos, de manhãzinha. Em casa, esperavam-nos o cuscuz de milho com manteiga ou o caldo de mocotó. As mães e tias dormiam.
Há tanto sobre o Piauí entre aquelas coisas recortadas de minha memória que renderia muitas pequenas colunas. Não me cansaria de falar da sabedoria daquela gente em meio à miséria, cercada da imensa luz da noite. No chão de terra batida das casas, naturalmente, os homens se submetiam aos coronéis. Na Piauí dos anos 70, havia duas classes apenas. Os pobres, que sorriam. E os ricos, cuja fortuna, citando Charles Chaplin, nascera de um crime social. Para sobreviver à pobreza, era preciso agregar-se aos ricos.
A miséria no Brasil pode se equivaler àquela piauiense, mas não é a mesma. Quando se vive na favela paulistana ou fluminense a lua não é mais branca do que aquela.
Escrito por Rosane Pavam às 23h17
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pietà lilás
Tenho seus olhos nos meus e não consigo dormir, porque vejo o que você vê. Um elevador que nunca pára de subir. Um carteiro vestido de negro, trazendo as notícias da minha reprovação escolar. O cachorro que me persegue sem razão, findo o dia, até que eu alcance o oitavo andar do prédio. Meu coração bate como o seu. Ou ele, em mim. Preciso estar com você, ou não mais estarei, ou serei, alguma coisa em qualquer parte.
À noite, meu pai me mostra fotos suas. Ele as guarda em um arquivo de computador. Nelas posso fazer alterações que me convêm. Posso aumentar o seu sorriso enquanto está de férias, viajando à Bahia, já que somente quando viaja você sorri. Dar um brilho aos seus cabelos que sempre me pareceram tão modestos é a minha maneira de acariciá-los. Em uma das fotos, eu lhe ofereço minhas bochechas de criança e você, de repente, ao beijá-las contra a face vermelha, transforma-se numa espécie de Pietà, vestida de lilás dos pés à cabeça.
Esta é a minha maneira de esperar que você novamente exista.
Escrito por Rosane Pavam às 16h43
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miúdo
Sim, é verdade que, depois de lamuriar alto e imprecar silenciosamente contra minha velhice, embora não seja ele mesmo jovem, o senhor tentou me humilhar diante de todos os que vieram compor a mesa do jantar. A toalha, afinal, teve o avesso do bordado exposto para cima, e isto é um crime suficiente diante dele e da donzela de vestido branco que aguarda os camarões.
Ele sabe que deixei há muito de ser a responsável pela arrumação da sala, mas é preciso que me culpe agora, porque seu jantar atrasou. O homem me paga por isto, cozinhar. E também para que o verdureiro traga a escarola pela manhã, enquanto hoje ele só a trouxe à tarde, às seis. Não me passa pela cabeça apontar a falha do verdureiro, pobre homem, resfolegante como quem recebe um mau telefonema. Por que esse infeliz mereceria que a vida lhe oferecesse o pouco que oferece a mim? Quando o patrão chegou faminto em casa, depois de perder o dia decorando o mausoléu de vinte cômodos de madame Duse, eu já sabia que a tragédia viria, houvesse justificativa para isto ou não.
Odeio os homens miúdos, todos eles. E o senhor não passa de ter um metro e sessenta. Mas assim ele não se vê. É por acaso grande como um português das Amoreiras? Dentro de si cabem um metro e setenta, um e oitenta, talvez mais. Começam assim os assassinos, os presidentes, os funcionários públicos que consertam a situação ambiental do Brasil.
Escrito por Rosane Pavam às 22h24
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Por que não me disseram antes que seria assim? Um dia, a verdade deveria ser dita ao menino que tive. Não era adotado, não era pobre, nem nada íntimo ou cruel ou extraordinário que lhe valesse uma manchete de jornal. Era filho, fruto de penoso parto emotivo. Deveria dizer-lhe isto, que andaria em continuidade a mim, que pouco eu poderia lhe dar além de ser o que sou. E o que eu sou... não seria possível dizer ainda.
Envelhecemos e não sabemos nada. Crescemos sobre uma ponte em sentido contrário. Sóis se transformam em acidentes. Em busca do ser fulgurante que suspeitamos adormecido no peito, percebemos que alguma coisa se apagou.
Escrito por Rosane Pavam às 09h26
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todos os dois bonitos
Ninguém tem o direito de me julgar, porque fui homem, e fui bom. Por vários e vários anos, ela, a avó, tentou tirá-los de mim, a pedido da mãe. Que mãe? Esta que partiu um dia para a Espanha, trabalhou num banco, casou com outro homem e enriqueceu? Todas as tentativas ao meu alcance foram feitas para mantê-los comigo, eu posso lhe jurar. Os meninos são todos bonitos. Depois que vieram morar na minha casa em Vila Prudente, dei para o maior uma bicicleta, e o maior não é esperto como a menor, então os ladrões roubaram a bichinha no primeiro passeio pela Praia Grande. Mas não desisti e dei o skate para o maior, e a bola do Palmeiras para a menor, que joga futebol, não é bonito isto? Lá onde ficam agora tem basquete, eu tenho fé.
Eles se foram para a Espanha, senhora. Semana retrasada, domingo. Tive de ficar duro. Os dois embarcaram, eu dei um abraço rápido neles, e então voltaram logo pelo corredor do aeroporto, com sacolas nas mãos. Tive a esperança de que os rejeitavam lá na companhia aérea, mas era só esperança. A menina tinha levado xampus, e eles não deixam carregar coisas do Brasil para a Europa, não sei por quê. Voltaram a embarcar, e eu já não era firme.
Passaram-se duas semanas inteiras, eles estão muito felizes lá, onde faz frio toda vida. Têm jogo de videogame e computador, como não ficariam felizes com isto? Tudo é bonito no começo, a gente sabe. Fiquei vazio, vazio, porém tranquilo. Ontem, o primeiro domingo em que recebo ligação deles, desabo em choro, dor, choro, cabelo pregado nas mãos. Me diga o que faço com aquela cama de campanha; vou dar. O skate: pro vizinho. Não sobra nem a bola do Palmeiras. Tenho dois sobrinhos.
Escrito por Rosane Pavam às 15h43
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perfeição
Eu nada sabia dele além dos telefonemas. E começaram porque eu pedi a ele que me telefonasse. Há dez dias, picada na parte superior direita do rosto por um inseto vermelho de pintas arroxeadas, vivia de me esconder dos outros, jamais sabendo se aquela condição seria um dia revogada pelas pomadas. Minha dermatologista só atende das 13h às 17h, na Mooca, e é por todo esse período que antecede a despedida da luz que mamãe pede o socorro de me fazer lembrá-la quem é, ou foi.
Portanto, não veria ninguém fora de casa até que o inchaço se ausentasse de meu rosto. O inchaço era como aquele detestável dia quente que só ganhava algum sentido a partir das seis, ao se desfazer na convulsão de uma centrífuga de cenouras. Meu rosto não merecia ser visto desde que eu completara 42 anos, há dez; naquele ano pudera sentir os efeitos do abandono praticado por meu corpo em nome da união familiar.
Não me tornaria transparente, então, neste momento em que as rugas de expressão engordavam a ponto de soluçarem e o homem mais velho a comparecer a minha aula de espanhol era um jogador de squash de 25 anos. Mas o inchaço iria embora um dia? Algumas situações, como a do síndico que me força ao uso das pantufas mesmo na cozinha, parecem nunca ter fim.
Os telefonemas começaram porque, quando me ouviu pela primeira vez no atendimento ao cliente da farmácia, desesperada a ponto de ter trocado a palavra públicos por púbicos, recebi do homem na linha uma gargalhada de papai noel bêbado, ou assim eu a imaginara. Ho-hic-ho. Não esperava tanta liberdade partida de quem se contrata a um atendimento padrão.
Ei-lo, o homem incomum. Ele tem mais do que cinquenta anos, talvez sessenta. Sua voz é calma e bem-humorada, de quem não se amedronta diante de um livro grosso ou de uma torneira de chuveiro quente quebrada. O homem e a perfeição. Naquele mesmo dia dos púbicos, ele parece ter encontrado sua ouvinte predileta.
Na ocasião me contou as coisas divertidas que ouvira num antigo disco de Cornélio Pires, coisas das quais não me lembro agora e que, de todo modo, ele sempre poderá repetir para mim, já que as piadas me apresentam esta qualidade de sempre parecerem novas. Eu nunca ouvira falar deste autor caipira, o Pires, mas aparentemente ele lera seus livros e agora descobrira discos velhos com as gravações de sua voz. “Se você só ler Cornélio Pires, não vai entender coisa nenhuma que ele diz, achará tudo uma porcaria sem graça. Mas este escritor, como o Juó Bananère, são impressionantes descobertas sonoras.”
Liguei para ele no dia seguinte a propósito de uma dúvida médica e duas vezes no próximo. Pedi que me retornasse no terceiro dia a partir das nove da noite, hora provável em que mamãe dormiria e Alvinho, pregado no sofá depois de chorar, seria carregado no colo até o quarto, pelas escadas laterais de madeira. O homem e a perfeição e o riso...
Foi no sexto dia, tomada pela paixão física que eu ainda não reconhecera deste modo, já que as conversas eram apenas uma desculpa para a pesquisa de uma fórmula caseira dermatológica, que me avisaram da farmácia de sua ausência no trabalho. Fora fazer um exame de sangue. Sim?, disse eu. Qual é o seu nome?, perguntei, a propósito. O nome do Homem Azul?, respondeu-me a mulher.
Homem Azul? A voz substituta no atendimento deu de novamente gargalhar, mas agora vinha entrecortada de pigarros. Sim, homem azul? Ela começava a me explicar com muito gosto que ele se tornara azul antes de se iniciar no mundo da farmácia como auxiliar. Há dez anos, começara a sentir o efeito do uso indiscriminado de nitrato de prata, um elemento que pessoalmente absorvia para curar tudo, de pneumonia às erupções do rosto, já que seu trabalho como maquinista de tratores, ironicamente, não lhe permitia o deslocamento à cidade e aos médicos. O nitrato de prata era usado antes dos antibióticos, sabia? E tinha o estranho efeito de azular todo o corpo, como tinta.
A voz fumava enquanto aguardava por mim. Eu e minha surpresa, a supresa que assim não desejava se declarar, denunciada, contudo, pela expressão das palavras pronunciadas ligeiras, novamente perturbadas de sentido. Eu já sabia, sim, claro, já lera sobre isso na Veja, ou fora na Época, ou na Vida de Psicólogo? Claro, acontecia muito isto com os macacos, me parecia, de Nova Guiné ou de Papua...
_ Minha senhora, me permita dizer que ele está tomado por sua voz _ interrompeu-me ela, mais fumaça desta vez. _ E que a senhora não perderá por conhecê-lo. Ele é um homem maravilhoso. Periodicamente faz exames de sangue para detectar o risco de derrames causado por esta sua desordem.
O Homem Azul?
Escrito por Rosane Pavam às 09h07
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meninas
De todas as alegres esposas conformadas, Betty do Barney; de todas as enlouquecidas pela compaixão, Marge; das equivocadas sensíveis e jovens, Lisa; das fortes, Docinho; das inteligentes petrificadas, Hermione e também Sabrina; das iludidas, senhorita Brill; das pensadoras à sombra, Samantha do James; das dominadoras sem pensar, Jeannie; Mafalda, entre os cabelos mais lindos; das solitárias tiranas, Eloise; das aterrorizantes, Dee Dee; das que pensam quando sonham, Alice; das tolas com grande coração, Susanita; dos rápidos raciocínios, Luluzinha; das livres, soltas e leves, a Noviça Voadora; das amoras nas tortas, Donalda; da tristeza sem fim, Violeta pelos músculos de Buscapé.
Escrito por Rosane Pavam às 11h56
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durma como antes
Não é certo que eu sinta o que realmente o coração palpita, veja o que realmente balança na frente de meus olhos, ouça o que grita. Nada é certo, se é visível. Especialmente depois de uma dose de cafeína que, em lugar de se dissipar com os anos, cresce nos meus hábitos, nada em mim parece duradouro, nenhuma observação, nenhuma alegria. As drogas como esta contida no café não duram, nem aconchegam. Mas, nesta manhã, senti muito entusiasmo depois da primeira xícara, e ele prosseguiu, de certa forma, por boas duas horas. O entusiasmo que nasce das notícias.
Soube que no ano que vem, embora não tenha dinheiro algum no banco, ou o tenha, divertidamente, em negativo, estarei autorizada a estudar de novo. Existe uma tese a desenvolver. Um programa de mestrado. Mas não sou jovem.
Li no jornal algumas frases boas vindas de anúncios e de matérias soltas sem sentido nos cadernos de nome intrigantes, Cotidiano, Ilustrada, Mundo. São títulos para catálogos de anúncios, eu acho. De todos, o melhor era aquele em torno dos imperativos jogos de cama Andreza: “Durma como Antes”. O anúncio é divertido de tão pobre-rico, porque dois bebês, uma menininha de fita e um menininho gordo, ruivos para combinar com o pastel dos lençóis e travesseiros, dormem o seu presente numa cama de casal.
Durma como antes! Uma resolução de Ano Novo, a mais feliz. Escondida na página 11, depois do anúncio (ou seria uma reportagem) estridente segundo o qual uma famosa estilista japonesa que não sorri agora não sorrirá para as camisetas com estampas de Geraldo de Barros que confeccionou. Barros, o brasileiro, o merecedor, desenhava gatinhos sobre negativos _ e só esta sacada encheu de alegria as duas herdeiras do artista. Com os gatinhos, ganhamos o mundo, mais do que naquele tempo em que Geraldo era íntimo de Henri-Cartier Bresson.
E tem o menino de 25 anos que atira bolinhas de gude (quando não, ovos) nos prédios vizinhos da Vila Nova Conceição. Eu queria conhecê-lo. Mas seus pais não deixam que ninguém chegue perto dele, é o que o jornal diz. E o jornal também lembra que sequestraram uma grávida de oito meses e anunciaram ao marido que pagasse o resgate, ou ele teria de arranjar uma outra mulher com quem ter filhos. Alguém denunciou os bárbaros, imperativos como os lençóis Andreza, e a grávida escapou. O casal vítima do sequestro tem um boxe no Brás e uma EcoSport, de onde a moça foi arrancada para uma semana de esconderijo movida a cachorro quente e manga.
Durma como antes!
Fico entre as bolinhas de gude e esta esperança.
Escrito por Rosane Pavam às 12h04
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hoje salvei minha mãe do alienígena
Hoje salvei minha mãe do alienígena. Mas, antes de contar como tudo aconteceu, preciso dizer quem são minha mãe e o alienígena. E quem sou eu.
Me chamo João Cabelo e tenho seis anos. Parece simples, mas preciso explicar tudo: por que João, por que Cabelo e por que seis anos. Vou começar pela coisa mais fácil: Cabelo. É o nome da minha família. Papai Cabelo, Mamãe Cabelo. Meus pais odeiam esse nome de família, porque não diz direito quem eles são. Papai tem a cabeça peladinha. E mamãe parece usar um véu, não um cabelo, tão fininhos são os seus fiozinhos.
Eu sou como a mamãe, mas um dia, me dizem, vou ser como o papai. Enquanto não fico careca, é uma felicidade que me chamem de Cabelo. Quem tem cabelo toca rock! Dá uma olhada no John Lennon e no Jimi Hendrix. A franja do Lennon é lisinha e o cocuruto dele parece uma tigela. O Jimi Hendrix põe um almofadão em cima da cabeça e amarra com uma fita. Que caras legais!
Sou Cabelo, mas por que sou João? Esta coisa é mais difícil de explicar. Foi uma idéia do meu pai. Ele podia me chamar de Elvis, seria radical. O Elvis tinha um topete do caramba. Mas o Papai não perguntou que nome eu queria ter. Ou pediu, e eu, bebezinho na barriga da minha mãe, não ouvi. Ele quis que eu me chamasse João porque é o nome de um cara que ele adora, velho, muito mais velho que o Lennon, o Hendrix e o Elvis, chamado João-Alguma-Coisa. E adora por quê? Uma vez, perguntei isso pro papai e ele respondeu, todo feliz: o Alguma-Coisa canta samba, canta baixinho como a gente fala e canta pra gente entender tudo. “Sim, papai, e por que então eu tenho o nome dele?”, perguntei. Papai fez cara séria: “Porque achei que isso ia ajudar a você a ser um pouquinho como ele.”
Não falei que esta parte era mais difícil de explicar? Até hoje não entendi por que o papai queria que eu cantasse como a gente fala. Que graça tem? E pra que entender o que a gente canta? Gosto do John, do Jimi e do Elvis porque eles cantam assim, “Chauauei bruglis ouou!”, cantam qualquer coisa. Só acho legais os sambas com “laiaialaiá”, porque “laiaialaiá” não quer dizer nada, se bem que todo samba tem “laialaiá”.
E seis anos? Cara, por quê? Seis anos é muito pouco pra mim. Primeiro, porque eu acho que o mundo existiu quando eu nasci. Eu nasci e: pronto! A cadeira apareceu, o livro se abriu, o sol sorriu de manhã. Sem mim, não tinha mundo, porque ele está na minha cabeça inteirinho, e só existe porque estou aqui. Aposto que o mundo de você que está me ouvindo também é um mundo que você criou! Seis anos, nada! Mil! E, se era pra ter esses anos, que fossem oito, ora! Com oito, eles deixam a gente entrar na escolinha de futebol.
Então, este sou eu. João Cabelo, seis anos. Falta explicar direito como é a minha mãe. E o alienígena que queria comer ela.
Por causa desse cabelinho fino, minha mãe tem sempre uns problemas. Não consegue fazer rabo de cavalo nem coque, porque o cabelo dela não segura. As presilhas deslizam. E ela fica com uma cara fininha, também, imitando o cabelo, como se estivesse cansada. Será que a mamãe vai acabar? Dá dó de ver ela ir pro trabalho. Dó e raiva. Dó, porque eu sei que ela não agüenta muito aquela canseira do computador. E raiva porque ela podia estar comigo aqui, se divertindo. Não ia aparecer tristeza na cara dela, e o cabelo ia nascer todo fofão. Um dia, antes de ela sair de casa, eu escondi a chave da porta no vaso do guarda-chuva pra ela não sair. E disse: “Relaxa, mamãe! Deita um pouquinho!” Ela riu, me beijou, mas não adiantou nada. Saiu pela porta dos fundos, esbaforida.
Um dia, mamãe chegou do trabalho bem tarde da noite, mais tarde do que de costume. Antes de jantar, tomou banho, pôs o pijama e foi me ver. Eu estava no quarto sozinho, com o abajur ligado e as figurinhas do campeonato brasileiro pertinho, ouvindo um disco azul e amarelo, na língua tão bonita que eu não entendo. O Lennon estava lá tocando: “Yellow submarine!” Mamãe deitou do meu lado e perguntou se eu queria história.
Que pergunta! Como a gente pode dormir sem história, não é, mamãe?
E mamãe começou a contar. Eu já sabia aquela. As histórias da mamãe são velhas. Mas não tem problema. Ela conta sempre a da Alice, que encolheu, passou pelo buraco da fechadura e mergulhou no choro. Às vezes, quando está contando pra mim toda essa confusão, ela esquece de pôr o Coelho no meio, o coelho de óculos dizendo que está atrasado. Sempre que mamãe fala do coelho, diz pra mim: “Parece comigo, né, João? Atrasada nem sei pra quê.”
Acho que é a parte da história da Alice que eu mais gosto _ quando a mamãe entra nela. Imagine só: ela de orelhões, óculos e dente pra fora. Eu morro de rir! Também é nesta parte que mamãe capota de sono. Eu fico pequenino na cama, para ela caber do meu lado. Faço um carinho na bochecha dela, com as mãos. Ela dormindo, a bochecha fica uma coisa, maior que as minhas mãozinhas de seis anos. Acaricio a bochecha dela e vou esperando a vontade de dormir chegar.
Quase sempre acontece assim. Mas naquela noite em que ela chegou tarde em casa, eu percebi uma coisa estranha no corredor. Gente ou bicho? A coisa fazia “roaaar” bem alto e o chão balançava. Eu, João Cabelo, balançava mais do que o chão. Para passar o nervoso, me deu a idéia de cantar baixinho os laiaialaiás do papai. Eu cantava tão baixo que só o meu coração podia ouvir. Meu coração ficou perto! Conversei todos os laiaialaiás com ele... E pensei uma coisa totalmente nova. Quando a gente canta baixo, o coração ouve. Quando a gente canta alto, ele não ouve nada, ele pula com a gente. De repente, entendi o que papai quis dizer com aquela história de cantar baixinho e entender tudinho. Seu João-Alguma-Coisa, venha nos salvar! Mamãe dormia de roncar.
Os “roaaarrs” ficaram mais altos. E a coisa acendeu a luz do corredor. Era um Coelho Alienígena com Boca de Jacaré, carregando uma corrente. Atrás dele, um humano que o alienígena já estava transformando em ser de outro planeta. Boca de jacaré, pés cor-de-rosa de Coelho: assim é um homem virando marciano. Aquele estava preso na corrente. De repente, eu entendi: o Alienígena vinha para pegar a gente, morder e transformar em alienígena. A boca era de jacaré porque a boca de jacaré é maior que a de Coelho, e podia pegar mamãe e eu de uma vez só.
Fiz o que era preciso ser feito. Me cobri com o cobertor. Como o Alienígena poderia me ver, escondido assim? Ele ficaria muito bravo, ra- rá!, e iria embora. Feito. Ele está chegando e não vai encontrar ninguém. Mas espera! Mamãe, você não acorda nem assim? Você está descoberta, mamãe! E não cabe junto comigo debaixo do cobertor! Ainda faltam passos para eles entrarem no quarto. O Coelho Alienígena não enxerga bem. Corro até o guarda-roupa e pego o edredon que a vovó me deu e eu nunca uso. Cubro a mamãe bem rápido e me cubro. O Alienígena fica bravo! Não vê ninguém e sai, levando o acorrentado.
_ Acorda, mamãe! Salvei você!
_ Me salvou?
Mamãe não entende nada de aventura. Mas ficou impressionada com a minha coragem, quando eu lhe contei o que tinha feito por ela e por mim. Me encheu de beijos, como se eu fosse um bebê mais esperto que um bebê. Depois, foi para a sala. Eu não tinha dormido ainda e ouvi o que ela contou ao papai: que eu tinha sonhado, que o Coelho-Alienígena era o coelho da história dela, que os “roaaars” do bicho eram, na verdade, o ronco seu. Mamãe não entendeu que, sem mim, hoje teria virado comida de réptil roedor. Mas eu perdôo a mamãe. Estava tão feliz, contando tudo o que aconteceu para o papai, que vi seu cabelo se afofar. Ela não sabe que eu a salvei e que meu nome, dado por papai, salvou nós dois.
Escrito por Rosane Pavam às 17h10
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riding giants
O tempo, um vagalhão no mar; o escritor, surfista a tornar a onda visível.
Escrito por Rosane Pavam às 13h45
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no sé
Tengo un dolor no sé dónde, Nacido de no sé qué; Sanaré yo no sé cuando Si me cura no sé quién.
Escrito por Rosane Pavam às 14h55
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doravante
Como eu queria, filho adorado, que, sendo mais forte do que o meu, seu coração se fizesse uma teia de único tecido, forma, elasticidade, um coração tranquilo como a bomba que reverbera no minuto final, uma fortaleza de sangue, sem tempo para a dor!
É como se eu visse, em você, aquilo tudo a que eu chamara destino, algo que, no entanto, eu recusara (na minha trajetória curva), o sábio modesto, o humorista que ninguém suspeitara pertencer à colorida casa dos vencedores.
O humor é a arma do encantamento; por isso, talvez, seus cabelos encaracolados tivessem se atado aos do empregado da libré enquanto vocês dois se consumissem em mesuras à porta do castelo. Vocês ficariam assim, juntos, rindo dos outros, dos donos do poder, sem desconfiar de que, ao mundo, se fariam estranhos, cocheiros em que pisamos depois daquela temporada de comida farta na taverna cuja cozinha ignora a higiene.
Eu queria que de muitas formas você superasse a todos, cocheiros, cozinheiros, violinistas, pedintes, prostitutas, desenhistas, atores, cineastas, designers, orientadores educacionais, publicitários, em respeito à luz que há em sua cabeça e na qual pinga constantemente A Grande Inspiração. É preciso que sua dama se liberte, deixe-a caminhar, andar sob o compasso do granizo e da chuva, porque, se necessário, nós a seguraremos para você, nós a deixaremos à espera de que tudo a que o condenam se consuma, à moda do que faz o tempo agora sobre meus olhos ressecados pelos quais espero uma única lágrima descer.
Escrito por Rosane Pavam às 14h09
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vapores
Os perfumes do amor foram substituídos pelo cheiro do feijão, cozido sob a pressão de um apito, naquela manhã fria, acariciada pelo sol. Por conta do forte odor da comida, eu não me recordava inteiramente da imagem presenciada enquanto dormia. Esta era uma sensação onírica de suave recorrência, incompatível com o início do meu dia na cozinha. Tomei a decisão importante de me concentrar no sonho que já passara. Dele, ainda exalava frescor. Nele, eu não dependia de ninguém, vivia como dentro de um banho, não em torno da fabricação de sabores que acabariam digeridos pelo estômago da família. Fui até a varanda para fugir da sensação da comida que cozia, em busca dos bons vapores.
O que fora aquele sonho, então, pensava eu? Mais um em que eu me vira jovem, e no qual, por alguma razão, era sempre mais do que vinha sendo hoje, pessoa dependente da culinária e da constância.
No sonho, o amante do passado se postava ocasionalmente ao meu lado. Não se parecia com meu amante real, o corretor de imóveis atraente porque desengonçado, alguém de quem eu imaginara ingenuamente cuidar, mas que o tempo demonstrara não estar disposto a meus ensinamentos, um homem limitado, convencional. O jovem do sonho era um pouco mais culto do que meu amante fora. O ser onírico, ao contrário dele, era negro, usava óculos de grau. Mas, como o corretor real em busca de ascensão na sociedade, este também se envergonhava de mim. Isto porque eu dera de lamentar, no sonho, da falta de me apaixonar constantemente, o que lhe provocara uma reação de incrédulo. Para ele, dizer que eu não me apaixonava como antes era demonstrar que o desejava fisicamente, coisa que jamais deveria acontecer de novo.
Mas não, eu não o queria mais. Era morto o tempo em que almejara para mim uma vida controlada, numa casa de paredes brancas, com um marido que aceitasse comer todos os dias o prato que lhe oferecesse, fosse ele sempre igual. Era morto o tempo em que eu o imaginara sendo este homem. A tragédia familiar ensina que a mulher deve ser vista como um doce sem direito à amargura.
A última vez que me apaixonara fora por um ator de teatro australiano que se postara por duas semanas num palco coberto, sob uma bolha transparente de plástico, obedecendo a um projeto artístico de vanguarda. A idéia de um homem preso a uma trama invisível, sempre disposto a dar um sorriso de aprovação aos passantes, revelara-se extremamente sensual, mas fora breve.
Que ele fosse feliz abdicando de estar sempre certo... Que não me forçasse à submissão e aos pedidos de desculpas... Esse homem não era meu amante, nem meu marido.
E eu agora estava à espera de que a sensação voltasse. A sensação do sonho. Os vapores da coisa eterna. Estive tão feliz enquanto sonhei! Não liguei para ele ou para seu sarcasmo, para sua indiferença ou para a oficialidade de sua condição masculina. Fui uma mulher livre, inconsciente... Por pouco, não atirei a bola de futebol do meu filho à janela da vizinha que preparava florais de Bach.
Escrito por Rosane Pavam às 09h54
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pretensão
Estou trancada. Não lhe digo o quanto o amo, nem por que, mesmo assim, me sinto distante dele, como um aparelho de tevê, de sua torre de transmissão. Ele passeia na rua de cachecol, sabe dar nós na gravata e ensaiou um suflê. Quando lhe digo que estou exausta, toca no piano uma sonata. O que será que ele pretende de mim? Todos os meus pudins solaram.
Escrito por Rosane Pavam às 14h09
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portas
Ele parou à porta e não quis entrar. Mas depois quis. E novamente recusou-a. A porta. A escola.
Quero vê-lo atravessar esse ponto onde, a partir de então, pode ser o que quiser. Quero vê-lo crescer para se transformar no próprio desenho.
Mas, por enquanto, o único impedimento à felicidade dele é esta idéia de que estou presente.
Sonhou que eu morria. Que morriam os pais, no assalto ao carro. E seu irmão sonha constantemente que é ele, primogênito prodigioso, o morto.
Escrito por Rosane Pavam às 14h45
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