Meu perfil
BRASIL, SAO PAULO, Mulher, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Livros, fotografia



Arquivos
 03/02/2013 a 09/02/2013
 25/11/2012 a 01/12/2012
 14/10/2012 a 20/10/2012
 19/08/2012 a 25/08/2012
 17/06/2012 a 23/06/2012
 06/05/2012 a 12/05/2012
 15/04/2012 a 21/04/2012
 08/04/2012 a 14/04/2012
 03/05/2009 a 09/05/2009
 20/07/2008 a 26/07/2008
 13/07/2008 a 19/07/2008
 11/05/2008 a 17/05/2008
 23/03/2008 a 29/03/2008
 09/03/2008 a 15/03/2008
 10/02/2008 a 16/02/2008
 09/12/2007 a 15/12/2007
 11/11/2007 a 17/11/2007
 28/10/2007 a 03/11/2007
 30/09/2007 a 06/10/2007
 09/09/2007 a 15/09/2007
 26/08/2007 a 01/09/2007
 19/08/2007 a 25/08/2007
 12/08/2007 a 18/08/2007
 05/08/2007 a 11/08/2007
 01/07/2007 a 07/07/2007
 17/06/2007 a 23/06/2007
 03/06/2007 a 09/06/2007
 29/04/2007 a 05/05/2007
 15/04/2007 a 21/04/2007
 08/04/2007 a 14/04/2007
 25/02/2007 a 03/03/2007
 18/02/2007 a 24/02/2007
 04/02/2007 a 10/02/2007
 28/01/2007 a 03/02/2007
 21/01/2007 a 27/01/2007
 14/01/2007 a 20/01/2007
 17/12/2006 a 23/12/2006
 10/12/2006 a 16/12/2006
 26/11/2006 a 02/12/2006
 15/10/2006 a 21/10/2006
 17/09/2006 a 23/09/2006
 13/08/2006 a 19/08/2006
 02/07/2006 a 08/07/2006
 04/06/2006 a 10/06/2006
 07/05/2006 a 13/05/2006
 23/04/2006 a 29/04/2006
 16/04/2006 a 22/04/2006
 02/04/2006 a 08/04/2006
 26/03/2006 a 01/04/2006
 19/03/2006 a 25/03/2006
 12/03/2006 a 18/03/2006
 26/02/2006 a 04/03/2006
 19/02/2006 a 25/02/2006
 12/02/2006 a 18/02/2006
 05/02/2006 a 11/02/2006
 08/01/2006 a 14/01/2006
 11/12/2005 a 17/12/2005
 27/11/2005 a 03/12/2005
 20/11/2005 a 26/11/2005
 06/11/2005 a 12/11/2005
 30/10/2005 a 05/11/2005
 23/10/2005 a 29/10/2005
 16/10/2005 a 22/10/2005
 09/10/2005 a 15/10/2005

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 fotógrafo carlos moreira
 flickr
 lulina
 xico sá
 pedro almodovar





Contos Invisíveis
 


a razão das diferenças

 

A razão das diferenças


Por Rosane Pavam

Paula Alzugaray, jornalista, crítica de arte, diretora de "Select", revista pertencente ao grupo editorial Três, que edita a semanal "IstoÉ", e sua colaboradora no campo das artes plásticas, é alguém a respeitar. Semanalmente, nas publicações que exibem textos com sua assinatura, ela se responsabiliza por escolhas, divulgando e discutindo com seu leitor os assuntos a merecer destaque. A meu ver, deve-se respeitar um crítico e autor como ela, por sua formação, mérito profissional e também, talvez grandemente, por seu poder editorial. Ler com atenção, sem brevidade ou lapsos, aquilo que ela comenta. Investigar por que, entre tantos outros assuntos de complexidade, transversalidade e diversidade no campo das artes, ela comentará justamente aquele tópico, não outro qualquer. E em que espaço de suas publicações raras irá estendê-lo, capa de caderno, resenha crítica, reportagem especial. Com seu poder de análise e veto, Paula é uma das muitas pessoas, no campo das artes brasileiras, a decidir que artistas irá lembrar ou esquecer.

O dilema de um jornalista não é algo vazio. É também uma sofrida responsabilidade. Eu a conheço há alguns anos. Sei por alguma experiência que, ao fazer escolhas no campo do jornalismo cultural, direcionamos o público à apreciação de um entre milhares de artistas brasileiros. Agimos rápido, acertamos, erramos, às vezes inconscientes para a grande dificuldade por que passam os autores em cada recanto. Em sua maioria esmagadora, eles sofrem pela ausência de uma política de estado para a cultura, como observou a presidenta Dilma Rousseff recentemente, ainda que se tenham passados tantos anos desde o fim da ditadura. Conscientes ou não, mas essencialmente cansados de saber, direcionamos o público ao consumo da arte, especialmente daquela apresentada como produto à imprensa, embalada, enfileirada nas bienais e nas galerias exclusivas. Valorizamos e incensamos, destruímos e acomodamos os fenômenos e as excepcionalidades, porque, para mais do que isso, nas grandes e pequenas revistas, talvez não se conceda espaço suficiente de fato. Não dispomos da cerimônia que nos reservaria um tempo de reflexão. E fazemos isso ao escolher, lamento, o que é "melhor" ou "pior", "maior" ou "menor", "importante" ou "irrelevante" dentro de um espectro do qual nossa formação parte.

O jornalismo cultural é um trabalho em progresso que faz escolhas. Estou certa de que Paula as exerce todos os dias, embora não nos diga isso em seu texto-comentário generalista sobre a edição à qual contribuí, idealizada pelo diretor de redação da revista semanal "Carta Capital". Chamo-me Rosane Pavam, sou editora de cultura da revista, escrevi dois textos  dentro de um conjunto de vários outros e me agradaria que ela tivesse informado isso a seu leitor. E por quê? Por fidelidade aos fatos ou apenas porque ainda acredito no autor e sua responsabilidade? Não sei bem. Igualmente, ou principalmente, teria me confortado ler em seu breve texto o nome de Mino Carta como diretor e autor do editorial daquele número, ele que é um dos principais e bravos nomes da imprensa brasileira a resistir contra nossas opressões cotidianas. Ou Paula poderia ter mencionado o grande repórter cultural Francisco Quinteiro Pires, constante em nossas páginas, autor da reportagem sobre "O Som ao Redor". Somos diferentes. Pensamos conjuntamente, mas também criativamente, de maneira particular. Não nos vimos brindados com a distinção de Paula, mas talvez, no fim das contas, isto não importe especialmente. Ter lido ali nossas frases embaralhadas, de forma a reuni-las em um conjunto de ideias nem de longe peculiares a nós, assim elevando o julgamento superior de quem as fez, isto é o que me pareceu um bom problema. A diversidade do pensar, do escrever, é preciso lutar para mantê-la. Em seu blog, em direção contrária, o crítico e poeta brasileiro Claudio Willer fez muitas considerações sobre essa mesma edição, com grande civilidade e saber, sem se esquecer de distinguir quem dizia o quê, para o bem das diferenças. 

Meu texto de abertura, por exemplo, intitulado "O belo não está à venda", não explora o vazio das artes. Ele fala, antes, das dificuldades históricas de produção cultural dentro do Brasil. Das raízes cordiais da cultura brasileira, que resultaram na apreensão melancólica do que somos como sociedade, o "país da sobremesa" segundo Oswald de Andrade. Falo da ausência de instituições fortes e mediadoras no País, como a justiça, a nos forçar desde séculos a um estado de apatia. E digo que teria sido esta falta a nos atirar à cultura como arma de luta, maneira de nos destacar da invisibilidade social. Sim, existe uma particularidade histórica que leva à produção de uma cultura dentro do Brasil (neste sentido, brasileira). Fazemos cultura, grosso modo, porque a desigualdade grita em nós. Também não disse que havia uma decadência cultural no País. Antes, afirmei que é incorreto falar em decadência se esta cultura ainda não viu seu verdadeiro apogeu. Mas "quem viver verá", como declarou a mim em entrevista, na sua notável expressão, o crítico e historiador Alfredo Bosi (e a escolha do personagem entrevistado, além da forma como realizei a conversa, também terá denotado um particular interesse editorial). 

Sugeri, a certa altura de "O belo não está à venda", que Romero Britto não se compara a Candido Portinari, que Paulinho da Viola e Paulo Mendes da Rocha ainda estão entre os melhores em seus campos de atuação. Sim, é o que me parece. Porque, como escrevi neste início, fazemos discernimentos entre as obras e os artistas, ou não teria sentido ser o que somos, jornalistas culturais transparentes. Não me lembro de ter exposto um ranking, exaltado um pódio ou feito nada minimamente parecido com isto ao destacá-los em sua grandeza. (Contudo, teria adorado lembrar a condição dos esportistas. Parece-me que dentro do esporte há expressões, maiores ou menores, que extrapolam os números de competição e tocam a condição da arte.) Em seu texto, Paula Alzugaray destaca a pintura de Dudi Maria Rosa, Paulo Pasta, Rodrigo Andrade, Fabio Miguez, Rodrigo Bivar ou Tatiana Blass entre tantas outras contemporâneas a merecer observação e respeito. Com isso, ela faz o que é comum a nós. Usa exemplos para ilustrar seu pensamento, marcar uma posição. Parece-me óbvio: se deixei de citar tais contemporâneos, não quer dizer que necessariamente os entenda de maneira negativa. Mais importante que destacar um e outro artista, quis ressaltar a existência de um esquema fechado neste mercado a impedir o surgimento de outros talentos. Lembro-me de dizer que a música paraense (não apenas e particularmente Gaby Amarantos), como a paulista ou a carioca, lutam e surgem nesse cenário contra os fervorosos esquemas da indústria cultural, a buscar esvaziá-la. Basicamente, afirmei que, contra a Rede Globo e toda a indústria cultural a nos restringir e limitar, será urgente a mediação de uma política verdadeiramente de estado. Estas entre outras coisas que disse e se misturaram no bolo textual da crítica de "Select". (Em uma de suas afirmações, a crítica constata que "depois da internet não existe a escuridão", como se a rede, algo aproximada à divindade, operasse sem intrigas, interesses, faltas e censura.)

Por fim, essa tão interessantemente lida edição de "Carta Capital" jamais teria cerceado a liberdade dos autores convidados a mencionar o que lhes aprouvesse. Não encolheríamos o que disse o filósofo Vladimir Safatle sobre a ausência de artistas plásticos promissores no Brasil, por exemplo. Principalmente, não eliminaríamos do texto sua impressão de que inexiste uma revista de crítica de arte no Brasil. Censura zero. Apenas para que o leitor se alimente de um bastidor, foi Paula Alzugaray, com quem trabalhei em "IstoÉ" há duas décadas, aquela a me alertar sobre sua revista  e sua batalha em mantê-la. Ela me disse que enviaria todos os números a meu endereço, para que eu os conhecesse e apreciasse. As revistas não vieram, mas decidi seguir seu perfil no Twitter, e por ali acompanho suas discussões aprofundadas. Foi também pela rede social que tomei conhecimento do texto daquela jornalista, "Fora de Foco", ao fim do qual não encontrei espaço para comentários. Pelo Twitter, igualmente, encaminho estes breves esclarecimentos, que alojei em meu pequeno e frequentemente relegado blog. O belo não está à venda, é mesmo o que eu penso. Mas tenho esperança. E espero viver para ver, sempre na trincheira cultural que pertence a todos nós. 

 



Escrito por Rosane Pavam às 21h07
[] [envie esta mensagem
]





As dores risíveis

Danuza inova. Não porque se revele elitista, agressiva, higienista em relação ao pobre, pioneira que sempre foi neste seu desnudar-se. Agora, seu sentimento é muito mais interessante. Sinistramente risonha, Danuza investe contra os mais ricos que ela. Ela os quer, ao menos por um momento, na mesma merda em que parece se encontrar. 

A cronista está bem-humorada (se isto não r

epresentar contrasenso), feliz agora porque também os milionários, os acima dela, espremem-se contra a parede. Ela raciocina. Se os pobres todos, os porteiros de prédio (admitindo que isto seja longinquamente possível), divertem-se no Champs Élysées, não há mais o Champs Élysées como visão do paraíso exclusivista para "nós". O mais rico que ela, como ela própria, também teria sido subtraído de seu privilégio, a essência da riqueza.

E é nesse ponto que eu me divirto sem parar. Eu me divirto com a burrice de Danuza Leão. Por que, pensemos: quão preocupados estarão os realmente ricos com as dores de Danuza? Para eles, que detêm não o dinheiro, mas os meios de produção, cuja riqueza é capaz de gerar riqueza até o fim dos tempos (na base eterna da exploração da mão-de-obra e da mais-valia, como ensinou Marx), Paris inexiste há muito tempo. É um centro comercial, com muito favor. 

Permitam-me então, por minha vez, rir um pouco da pobrezinha da Danuza classe média, sozinha diante de um livro no seu quarto de ar condicionado, enquanto os muito ricos descansam naquela ilha distante de espetacular geografia que ela jamais conhecerá.



Escrito por Rosane Pavam às 15h15
[] [envie esta mensagem
]





nostalgia como um passe livre

Tanto falam de saudade. Mas a palavra de que eu mais gostava na infância, e que me causava arrepios de descoberta, era nostalgia. Ela representava na minha memória de início um estado de suspensão bem mais profundo, um país desconhecido, a malásia na xícara de chá. Enquanto a saudade significava o sofrimento repetido.

Tinha saudade da rua Santo Antônio onde morava, por exemplo, todos os dias. Ou quase todos. Especialmente quando chovia, amanhã haveria prova ou eu adoecia febril. Mas minha nostalgia, não. Era muito mais complexa, aquela dificuldade a me atrair em tudo, o impossível que significava, para a família, a posse de uma batedeira de ovos ou de uma enciclopédia Barsa.

Nostalgia, então, eu a entendia de meu próprio modo. Era uma palavra, mas também um passe livre. Ocorria que eu a sentisse somente por aquilo que não tinha vivido. Shirley Temple, Clark Gable, bondes em São Paulo, casas com jardins e cachorro velho no interior. A história me excluíra do passado, mas a moça nostálgica abrira os cadeados.

Tanto tempo se passou e só agora raciocino sobre esse sentimento que me salvou de uma porção de coisas. De imaginar que eu teria tudo, de que seria tudo, de que viajaria de trem todos os países, um a um. A nostalgia foi o começo da minha observação, me jogou à arte, à literatura, a todos os filmes nos quais eu me encaixava e fingia viver. E então devo a ela os olhos enxeridos, o apetite grande, o pequeno que sou.



Escrito por Rosane Pavam às 12h43
[] [envie esta mensagem
]





Era uma vez na América. Era eu.

Era pouco mais que uma menina quando pela primeira vez assisti a este filme de Sergio Leone. Conheci Era uma Vez na América no momento em que ele chegava aos cinemas, creio, 1983. E o vi a ponto de persegui-lo, talvez porque ele mexesse com o que minha cabeça, ou seria o coração, julgasse estar em jogo na vida à  espera. O amor, a hipocrisia, a perda, a solidão, um universo sem pais, sem o sim da família, ao menos o não, nada de escolas, a violência da existência social no confronto direto, a mulher como ocorrência colateral, à sombra. Um mundo em que não se poderia vacilar sob pena da morte,  como ocorreu ao menininho no qual atiraram por trás, um pouco à moda da Rita de meu bairro, que o PM matou por ciúme. E nos braços do amigo a criança do filme ainda se desculpou por errar. O menino seria minha amiga morta ou apenas eu?

 

Um bairro judeu que eu parecia sentir como meu Bexiga, confuso, gritado muito alto e esquecido por deus. O filme me fez andar pela rua do tempo. Acho que fez qualquer um. Sente-se o esgoto, a molhadeira, o frio, em cada estupenda reconstituição de cena coletiva, vista à distância de uma máquina de fotografar que, para não tremer, se põe sobre o tripé no chão. Quanta beleza quando podemos viver dentro de um filme. Corri a ele, em suas quase quatro horas, duas ou três vezes naquele 1983. Não havia cinemax nem conforto nem ar refrescante para que eu pudesse mergulhar em tanta verdade, e eu tinha de pagar ingressos. Mas, sem conforto, é fácil ver. 

 

Melhoradas as salas de cinema para que o cinema em si declinasse, nestes quase trinta anos nunca mais voltei a esta obra de Sergio Leone, cheia de música, a lírica épica orquestrada por Morricone à revelia do filme, como se fosse a única possibilidade ficcional dentro de uma narrativa que é a verdade. Eu embaralhara o filme em minha cabeça, talvez por temer não suportá-lo outra vez. Quatro horas e lá estava a história do mundo. Era uma vez a própria América e eu também era. Sem ser a fã ardorosa de Robert de Niro, mas entendendo que fora estupendo, o truque (hoje esquecido) da maquiagem mínima para envelhecer, andando como um velho, o rosto pelas fechaduras das mentes próximas, as decisões tomadas como quem é um animal triste, um boi, às vezes um touro idiota, a cabeça rumo a pender, eu o entendia como a mim. Uma pessoa sem os princípios doutrinados. Alguém que só tem a si quando age e intui.

 

Insisti muito que meus filhos vissem o filme comigo. Coisa de mãe inalienável de sua antiguidade. Clube da Luta é sangue conservador, eu lhes dizia, enquanto Era uma Vez na América nascia de quem sangrava antes do tiro. Um dos filhos dormiu. O outro ficou para ver. Nós nos abraçamos no fim. Nós nos abraçamos sempre. Mas é que desta vez, como quase nunca faço, chorei escondida no ombro dele que cresce. Não vou sorrir sob o ópio, como De Niro naquele belo fim. Só vou sorrir, a droga em si.



Escrito por Rosane Pavam às 04h32
[] [envie esta mensagem
]





no caminho dos elefantes

No sonho de hoje o guarda-roupa estava lotado. A luz elétrica mal iluminava seu interior. A camiseta escolhida desaparecera entre minhas mãos. Eram tantas outras em seu lugar. Verdes, azuis, cores que eu não seria capaz de reconhecer, tamanha a escuridão. Mas eu só desejava a camiseta preta amarrotada. 

Festa no sobrado. Outras propostas de vestimenta partiam das pessoas limpas. Mas eu não queria indicações. Fugi na direção de um outro armário, tateei. Desta vez, o guarda-roupa mudara de lugar. Sob o sol, a madeira de tonalidade marrom-escura amarelara. E agora, como se sempre tivessem estado lá, me observavam os elefantes. Nua, decidi andar entre eles com a minha coragem e os cabelos desfeitos, até que um novo armário me oferecesse não as roupas, mas ar quente.



Escrito por Rosane Pavam às 11h07
[] [envie esta mensagem
]





Soberbos de ingenuidade, nós nos indignamos com uma fotografia, como se ainda precisássemos de alguém a desenhar as coisas para nós. Acaso desconhecemos quão suja e pragmática a política possa ser? Quantos malufs implícitos já houve em todos aqueles, do PT ou não, nos quais votamos antes? De toda a necessidade política, contudo, só extraio a imagem triste, postada e repostada neste facebook em dois momentos, um no qual Lula sorri, outro no qual posadamente se resigna. Nas duas fotos, em essência, há dois velhos líderes a manejar bem as exigências populistas, seja à esquerda, seja à direita (porque se elas acabaram politicamente, rs, pelo menos existem no espaço da foto). Enquanto um terceiro personagem, novo, o candidato beneficiado, enlevado em éter, semi-sorri de candura abraçado ou agarrado ao compadrio, nitidamente tentando aprender alguma coisa. Eu daria uma legenda à imagem se a postasse, mas não farei isso, sendo o face o mural dos meus sonhos: "A guerra dos botões".



Escrito por Rosane Pavam às 10h07
[] [envie esta mensagem
]





O facebook é o sucesso de um nome. Nele, as pessoas são faces a ilustrar um livro que se escreve sozinho. Tornadas face-pessoas, elas se descabelam diante de nós sem ninguém pedir. E ainda revelam, descartáveis hahaha, o seu pior. A moça fina nunca o foi, olha as agressões que ela diz. O rapaz ponderado, síntese do equilíbrio, no comentário minúsculo vomitou um rancor. Mas o boçal da vestimenta, este guarda em casa uns bichinhos perfeitamente limpos. Entrelinhas rosa-choque desde o bom-dia, para quê? Hesito em deixar o face que certa vez me expulsou. O mistério dos outros, o inferno dos outros, quem são os outros, os outros existem, posso jurar, aquele filósofo viu todos eles pularem da tela antes de mim.



Escrito por Rosane Pavam às 10h22
[] [envie esta mensagem
]





Domingo, dia de levantar sem hora. Às seis, pulo assustada da cama porque ainda, desde o sonho sem fim, me sinto perdida na avenida Francisco Morato, sem saber que ônibus tomar, com vergonha de fazer a pergunta. São imagens coloridas. Vou a um banheiro às pressas, no fundo do cabeleireiro, e ali, em lugar de privadas, há cadeiras vermelhas de plástico. As portas não fecham, normal para os outros. Nos meus olhos, brilha a luz de uma esteticista. A manicure me deixa dormir e, quando acordo, todas as clientes engordaram, gente conhecida que não se apercebe. A amiga que me levou até lá foi embora, consciente de que eu não dirigia e que aquele era um mundo perdido. Quero fugir de fininho, não entendo por quê. Ninguém me observa, ninguém vai notar que eu saí.



Escrito por Rosane Pavam às 09h48
[] [envie esta mensagem
]





neymar

É assim. Me deixem em paz. Os meus cabelos serão o que for. As minhas bolas entrarão ou não. Os meus dribles andarão sozinhos. Batam que eu me levanto. Não serei Pelé, não serei Messi, não serei ninguém, exceto o que sou.



Escrito por Rosane Pavam às 23h21
[] [envie esta mensagem
]





um time, um país

Raramente alguém verá as lágrimas que inundam minha pele de dentro. Sou a rocha mole. E choro durante um filme de Clint Eastwood. Mas por quê? Não é a obra dele de que todos se lembrem. Não tem o toque da luta que sangra e mata. Pelo contrário, a história vem ali compreendida em linhas finas, um vinho harmonizado em relação a um prato de comida. Nelson Mandela tem dois problemas, a nação antes que se forme e a família que o rejeita. E então esse Mandela de tanta vida e história, o Madiba, corre atrás da simbologia da união de si mesmo e da nação por meio de um jogo de rúgbi. Não somente Morgan Freeman é esplêndido no papel do presidente, mas cada passagem do roteiro, da fotografia, ilustra a paixão eloquente com a qual se deve construir um país de tão áspera tapeçaria. E é também, Invictus, um grande e raro filme em torno do esporte, da torcida, dessa emoção banal plenamente justificada por circunstâncias amargas. Vai ver eu não choro pela África do Sul, pelo Brasil, por coisa nenhuma quando vejo esse filme pela tevê, exceto pelo poder que sobre mim exerce qualquer arte, grande ou pequena, arte que reproduz com um mínimo sentido a fúria de viver.



Escrito por Rosane Pavam às 12h22
[] [envie esta mensagem
]





o amor nos tempos do capitalismo

Amor nos Tempos do Capitalismo não é o que o título possa sugerir. Não, pelo menos, um livro que ensine um ser humano a amar o outro apesar do mundo mau lá fora. Nem um compêndio a constatar o óbvio poder de mercado deste sentimento na sociedade de consumo. O livro de Eva Illouz, socióloga nascida no Marrocos e residente na França desde os dez, dá um outro lugar ao amor. Para encontrá-lo, a pesquisadora de 50 anos leu publicações de auto-ajuda, acompanhou sites de relacionamento e assistiu a muitos programas de televisão, nos moldes daquele da norte-americana Oprah Winfrey, nos quais a pungência sentimental tomava frequentemente o centro. Seu livro, lançado no Brasil pela editora Zahar, nasceu da inquietude diante da exposição midiática sem limites da dor alheia, amorosa ou não. Por que narrar os próprios flagelos, perdas, sofrimentos e situações de abuso elevaria a audiência de uma programação ou o índice de leitura de um site ou de uma revista? Por que expor a intimidade tão abertamente, sob risco de vexame?

 

Eva Illouz, que já escrevera um estudo sobre o programa de Oprah, desenhou sua hipótese. Isto aconteceria porque, pelo menos em nível de infortúnio, o capitalismo ofereceria ao sofredor um destaque que o equipararia socialmente a qualquer outro cidadão. Nem todos temos um bom emprego, uma casa de fantasia, uma família de tradição, a fortuna que nasceu de um crime distante, a promover um destaque social. Tampouco podemos contar com o mesmo tipo de acesso a bens, moradia, educação e glórias na sociedade movida pela concentração do capital. Mas, entre a faxineira do prédio, desprovida de dinheiro, e a popstar Beyoncé haveria sempre um denominador comum no sofrimento a enfeitar suas vidas. Como num passe de mágica, sem recorrer a um assalto a banco, sem ganhar um tostão na loteria, seríamos merecedores de reconhecimento e atenção universais, e isto significaria um poderoso substituto de uma boa condição financeira.

 

A vida de alguém, realçada pela dor, ganha, assim, um posicionamento alto, que prescinde da existência de títulos e posses. É o que a enfeita, por assim dizer, e A destaca no oceano de existências anônimas. O sofrimento seria uma obra de valor, cujo lastro nasceria da história íntima. E todos têm a sua. A própria Oprah Winfrey jamais deixou de situar, como marco em sua existência, além da pobreza, o fato de ter sido vítima de abusos sexuais na infância e na adolescência. Hoje espetacularmente rica, ela se torna igual a todos os ninguéns sem moradia, crédito, relacionamentos, títulos de clube, tapetes vermelhos e jóias no cofre apenas em razão da violência sofrida remotamente. Porque sofremos, e não ousamos desejar mais que isso, somos iguais a ela, que “venceu”.

 

Quando os sofredores abusam da exposição do próprio eu, inflam um ideal romântico e burguês de identidade e, principalmente, deslocam-se da nuvem dos invisíveis de posição social. Imaginam-se, eles mesmos, homens de poder. O sofrimento, especialmente aquele narrado às lentes da televisão, concede calma ilusória a esses desvalidos da grana. É um meio rápido de superar a barreira social e de construir uma biografia. Um meio novo, diz Eva Illouz, já que, antes, especialmente em fins do século XIX e início do XX, a história de um grande homem, história que merecesse ser destacada e admirada, fazia-se exclusivamente quando narrada do nascimento na miséria ao enriquecimento financeiro. Um homem não precisava sofrer abusos de toda ordem, físicos, sexuais, para merecer atenção e respeito de todos os que viviam sob o capital. Bastava se tornar rico.

 

A riqueza que não existe sob a forma material receberia equivalência em horas sofridas, decantadas especialmente pela internet e pela televisão. As redes sociais não são bem-sucedidas por acaso. Tornaram-se irresistíveis niveladoras sociais por meio da simples exposição do que sentimos. Fóruns em que, vezes várias, somos ilusoriamente livres para dizer quem somos, como se isto pudesse interferir no curso das coisas no mundo do capital, ao qual nosso acesso é francamente secundário. Nas redes sociais, além de comunicar, manifestar, esprair um desejo de transformação, valorizamos a exposição íntima, a opinião particular, aquela mesma nascida de uma vida sem títulos de sabedoria, esquecidos de que falar a esse léu por vezes nada mudará, especialmente no que se refere a nossa conta bancária, a nossa capacidade de adentrar o portão do clube dos homens de bem. Em uma sociedade sem mediações, na qual as instituições como a justiça parecem enfraquecidas, e na qual as oportunidades culturais e educacionais não são as mesmas para todos os cidadãos, transformar nossas lágrimas em moeda não parecerá uma ideia ruim. É isto, para a socióloga marroquina, o que significa amar (e, por extensão, expor o que sofremos) em tempos nos quais o capital manda ver.



Escrito por Rosane Pavam às 16h53
[] [envie esta mensagem
]





Na avenida Paulista, eles agitam o estandarte contendo o perfil em escrombos do Plinio Correa de Oliveira. São dissidentes da TFP, na verdade uma espécie de PC do B deles, e talvez haja menores de idade entre os que passam de lá para cá agitando um folheto e um lenço, hum, dourado, como um echarpe, em volta do colo. Um mané desses em ouro se aproxima para me entregar um folheto. "Pela família, contra os homossexuais, senhora". Meu gesto é afastá-lo com a mão, como quem se livra rapidamente da mosca do estrume. Digo-lhe: "Sai pra lá, maluco". Naquela hora temo uma contaminação diretamente na pele, enquanto ele retruca: "Maluco eu, senhora?" Ando devagar para não lhe insinuar qualquer temor, porque, sim, bem sei, maluco ele não é. Lá na frente, um velho sorridente e um quase monsenhor, vestido como num filme de Rossellini, caminham em direção de senhoras como eu, a dignidade em dia. Crápulas, não menos, mas crápulas de circo, muito saidinhos no palco da avenida para quem deseja para o Brasil o estatuto do golpe, do medo e do terror.



Escrito por Rosane Pavam às 12h27
[] [envie esta mensagem
]





A razão principal deste afeto por uma pessoa desconhecida, com quem acaso estive em São Paulo durante uma coletiva, é que há nela uma agudeza, aquela que a gente chama de inteligência, ao observar as coisas e as pessoas (cheguei atrasada à entrevista, e ela, enquanto falava aos jornalistas, percebeu-me esbaforida com um leve divertimento). Naquela ocasião, Liv Ullmann parecia não se levar tão a sério assim, disposta a entregar a percepção de grandeza para os cômicos, como a lembrar que sempre haverá aqueles maiores, mais humanos, mais certeiros do que nós.



Escrito por Rosane Pavam às 13h56
[] [envie esta mensagem
]





Sonho que malho e malho em filmes bacanas de jovens diretores sem Oscar, dinheiro ou unanimidade de público, e que, decidida a entregar remédios em domicílio para sobreviver, de repente recebo a ligação da secretária do Woody Allen me propondo uma ponta em mais um daqueles seus longas anuais, sendo que a melhor frase do filme, eu é que vou dizer. Sei que vou perder a chance de um emprego na farmácia, que o filme não valerá tanto a pena ser visto, exceto pela coragem de expor a negatividade calorosa de Woody Allen de novo, mas que a vida, com esse convite, terá me me feito participar da beleza inútil da arte pelo menos uma vez.



Escrito por Rosane Pavam às 11h02
[] [envie esta mensagem
]





no passado, ele para mim era o melhor guitarrista, compositor, músico de todos, mas agora, além disso, suas roupas das quais eu rira antes, tão cafonas, me pareciam as melhores, e mais, eu me pegava pensando como ele fizera tantas coisas em menos de trinta anos, amar as mulheres e invejar os sujeitos longínquos de seu mistério, jagger, clapton, townsend, poor bastards!



Escrito por Rosane Pavam às 11h02
[] [envie esta mensagem
]



 
  [ Ver arquivos anteriores ]